quinta-feira, 7 de março de 2013

"O espelho no espelho"


Houve um tempo, quando eu fazia minhas primeiras inexperiências no mister de ensinar física, em que uma danada duma pergunta aparecia e me incomodava, quase sempre no início do ano letivo. Em geral, nascia na boca de algum aluno que ainda não tinha frequentado os cursos de Resignação I e II: “Professor, pra que serve isso que o senhor está fazendo?” e às vezes emendava “se eu não for virar cientista, pra que isso vai ser importante na minha vida?”. O tantão de tempo que já passou serviu pra me convencer de que só o fato de alguém construir uma frase terminada com esse “?” já é um motivo de comemoração, e nunca (ou quase nunca) um tormento. Ela, a frase, é uma oportunidade de usarmos aqueles próximos minutos pra ficarmos todos um pouquinho maiores, um pouquinho mais vulneráveis (sim, isso é bom!) e um pouquinho menos velhinhos.
Hoje também, quase nunca me vejo nessa busca incômoda por justificar as ações (do tipo 'ensinar física', 'pintar um quadro', 'escrever/ler poesia') com razões e motivos nobres, como se qualquer coisa precisasse ter uma função que lhe desse o direito de existir sem dor na consciência. Mas a ideia da necessidade-justificativa está muito longe de ser frágil. De vez em quando encharca algum caminho e deságua em coisas como “Olha, eu acho que você pode, e até deve, fazer suas pinturas e desenhos. Mas isso é hobbie! Pra sua vida, tem que ter uma profissão de verdade!”.
Pois foi, de certa forma cedendo créditos ao inimigo, que outro dia me vi feliz por (re)descobrir uma RAZÃO bastante clara para se produzir arte: Eu estava (re)vendo o conteúdo de minha pasta-verde-de-desenhos-muito-antigos e peguei um trabalho (é, chamo os meus desenhos de 'trabalhos') que acabara de completar trita e dois anos, feito na véspera do meu décimo sexto aniversário por um outro eu, que viveu há zilhões de histórias. E de um modo quase mediúnico, pude lembrar do risco inicial do lápis, da escolha das cores nos micro-tubos de aquarela, do vidro de nanquim, dos pincéis... mas, principalmente, tive uma 'conversa' com aquele 'eu' quase criança que pacientemente me relatou as muitas intenções e conquistas habitantes daquele papel formato A4.


Desenho com nanquim e aquarela sobre papel

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

"E a duração do lírio fora um hálito"


Confiança, a essência e o sumo dessa palavra preenchem pelo menos noventa por cento dos meus poros desde que me entendo por gente. Nas conversas eternas com meu irmão, eu sempre falava da certeza de que tudo ia dar certo e de como as pessoas à nossa volta estavam sempre tramando alguma coisa para me fazer mais e mais feliz. A primeira vez que me lembro de me sentir mais vulnerável tem a data do nascimento de minha irmã, doze anos mais nova que eu. A paixão incondicional por aquela pessoa minúscula e absolutamente frágil me fez ver de forma muito clara (como nunca tinha visto antes) os espinhos e arestas do mundo inteiro. As rochas que serviam de lastro para minha anti-paranóia continuavam razoavelmente firmes. Mas nada seria como antes, nunca mais. Lembro que, nessa época, passou a ocupar a minha agenda uma preocupação extrema com o cuidar-da-delicadeza-de-todas-as-coisas. Preocupação que fica bastante hipertrofiada com uma tragédia que mata mais de duzentas pessoas (a maioria delas tão jovens) num piscar de olhos.
Existe, é claro, uma parcela considerável do meu espírito que insiste em permanecer com catorze, quinze anos no máximo, e que, mesmo agora, me faz ouvir suas perguntas: Será então que vamos ter que virar todos nós vovozinhas servindo sopas e caldos quentes? Não vê que a vida flui incontestável por qualquer artéria que se preze? Não vê que é assim mesmo? Que “viver é muito perigoso”?
Percebo que não sei preencher esse questionário. Mergulhei de cabeça no mar de dúvidas e voltei de mãos vazias. Cuspi muita água e muito sal e nenhuma resposta...

Um gole de chumbo
Desenho digital feito com o programa MyPaint


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Adeus, ano muito velho!



Em outubro de 1983, na época do governo Reagan, os Estados Unidos lideraram a invasão de Granada, um país bem pequenininho que ocupa umas duas ilhas caribenhas. O resultado foi algo em torno de uma centena de mortes e a deposição do Governador Geral. Logo depois desses fatos, chegou o mês de novembro trazendo uma enxurrada de propagandas natalinas acompanhadas daqueles filmes lotados de americanos sorridentes exclamando MarryXmas! o tempo todo. Pois foi nesse clima que se desenhou na minha caixola um cartão macabro traduzindo o meu sentimento com tudo aquilo. Resolvi dar realidade à ideia com uma xilogravura. A intenção era fazer muitas cópias: sementes-imagens capazes de multiplicar o poder de meu protesto gráfico. Acabei não conseguindo uma prensa e fiz apenas cinco impressões em papel de seda. Vinte e nove anos depois, de posse da magia de clonagem de pixels, entrego uma réplica do meu esbravejar ligeiramente ingênuo e melodramático a quem quiser.


XXXmas!
Xilogravura  12 x 20 cm

sábado, 15 de dezembro de 2012

“O INFERNO SÃO OS OUTROS”???

No final de 2011 – Dio mio, já faz um ano! – eu e mais seis ou sete professores de física do cefet formamos um grupo para estudar e discutir Fundamentos de Mecânica Quântica. Após um brainstorm inicial, escolhemos e separamos a bibliografia básica, seguindo principalmente as sugestões de nosso mentor-mor e integrante do grupo, Antônio Domingues. Acho que a reunião de seres para conversar é, mais que uma atividade agradável, um privilégio da raça humana. Se acrescentamos a isso um objeto de discussão, criamos uma aventura de pensamento que pra mim consiste em um dos maiores deleites advindos do convívio social. Pode parecer bizarro para quem nunca teve uma experiência semelhante, mas passar algumas horas discutindo física, metafísica e filosofia da ciência é muito divertido. Um grande prazer trabalhar assim.
Em contraste com o mundo ordenado de um professor-pesquisador, quando pensei em viver da arte, não fiz nada de maneira institucionalizada. Em parte porque queria mostrar para mim mesmo e para todos (Caramba! Quanta arrogância!) que sendo amador-artista, no sentido de só fazer o que realmente gostasse, alcançaria o sucesso. Em parte consegui. Consegui ser amador... Bem, me perdoem vocês que se mantêm resignados na leitura desse texto até agora, se parece que vou começar a desfiar queixas e lamúrias. Nada disso! Cometi essa desinconfidência só pra dizer que nunca pude formar, de verdade, um grupo de discussão em que o assunto fosse Arte. Cheguei a tentar, mas eu tinha acabado de viver no ambiente acadêmico da Ciência, e meus colegas das tintas ficavam querendo que eu explicasse o que era física quântica (sim, parece um karma). E perguntavam se eu não via a dualidade onda-partícula em qualquer canto de tudo quanto era quadro. Achavam tudo muito lindo e interessante. Eu queria outras ideias e não tive paciência, passando a considerar aquele grupo um bando de malucos (novamente: Caramba! Quanta arrogância!). Enfim, não funcionou e fizemos pouquíssimos encontros..
Nessa época, um pintor, que era amigo de um dos artistas que dividiam comigo o aluguel do atelier, pediu para passar algumas noites dormindo num colchonete em um dos cômodos (tempos difíceis). Ele não fazia parte do pseudogrupo de discussões, mas participou de uma reunião. Eu estava mostrando e comentando alguns trabalhos meus, quando ele falou um negócio que ainda me faz pensar: “Cara, eu acho seus quadros bem legais, mas você tem que tomar cuidado pra eles não ficarem anedóticos. A pintura só deve servir à pintura, não deve contar historinhas. Você é muito literário...”
Well, well, well... Até hoje eu não sei a quem a pintura deve servir e sempre acho que os meus quadros e desenhos são anedóticos. Este que jogo hoje na nuvem é, provavelmente, um dos exemplos mais típicos dentre todos. E confesso que ele quer mesmo, pelo menos um pouco, contar em cores essas historinhas que acabam de ser apalavradas.

Grupo de Pesquisa
Óleo sobre tela, 110 x 90 cm

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O Que Eu Queria Mesmo Era...



A cena acontece em um restaurante-boteco, no fim do século passado (1999, se não me falha a memória). Estamos conversando eu e mais quatro professores de um Centro Universitário que fica ali bem pertinho. Um deles acaba de publicar um livro de poesias-altíssimo-nível e ficamos todos entusiasmados com a ideia de que é sim possível produzir arte de verdade, independentemente de se ganhar ou não o pão de cada dia com esse trabalho. Lá pelas tantas, alguém cita uma frase ouvida diretamente de um dos irmãos Campos (creio que do Haroldo, mas não garanto...): “Não tem outro jeito, na arte, como em qualquer atividade, o importante é manter a produção.”
Acho que foi também o eco dessas palavras um dos motivos para que eu criasse este blog, lá no comecinho de 2012. Algo que contribuísse para manter meu foco no compromisso, com sei-lá-quem, de publicar os trecos que ficam aí embaixo.
Mas então...
Uma fibrilação atrial, um mega-vazamento de água em minha casa e uma greve bagunçaram meus planos tão plenamente planejados, e com a maior facilidade. Sim, sim, sim, sempre podemos construir muros e obstáculos assentando esses tijolinhos de desculpas. Um espirito de insurreição, no entanto, ainda vive aqui dentro!
De modo que as linhas e cores oferecidas aqui marcam o (re)início da minha batalha (já vitoriosa) contra a pasmaceira.
Ah, nesta empreitada, troquei o TwistedBrush pelo simpaticíssimo MyPaint (também gratuito), que se mostrou fabuloso pra quem gosta de aquarela.


Reflexões

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Pulando do Abismo pro Fio da Navalha


Uma vez, um amigo me perguntou qual linguagem artística mais me agradava. Sem parar pra pensar (pensei junto com as cordas vocais, eu acho), fui falando em ordem: primeiro a Literatura – ler é um prazer tão grande que precisa inventar um adjetivo pra qualificar; logo depois vem o Cinema – fiz uma sala de exibição em casa e sou capaz de assistir dez filmes seguidos; em terceiro...“Epa, péra la” era meu interlocutor reclamando: “você não é pintor? Que papo é esse de livro e filme?”
Pois é, pintura, pra mim, tem uma importância infinita na hora de fazer, mas quando eu sou plateia, não me toca tanto quanto um bom livro ou filme. Sim, sim, claro que já me deliciei muito com tantos e tantos quadros, desenhos e gravuras que atravessaram meu caminho. Pintar, no entanto, especialmente com tinta a óleo, é uma ação que pertence a outra esfera. Demoro muito em cada quadro, é um trabalho em que estou sempre presente. Nada de ações mecânicas, cada passo com uma solene obrigação de me conduzir para algum lugar...embora eu não saiba aonde. Nesse ponto, reside o aspecto mais potente e exasperante do processo: há um aprendizado ininterrupto que quase não deixa respirar. É como pular de paraquedas o tempo todo.
Este quadro, que eu apresento agora, ocupa a parede principal de minha sala. Talvez porque foi durante sua confecção que percebi conscientemente esse sentimento que descrevi. Foi quando descobri que pintar era assim.




Cinderella
oleo sobre tela 140 x 80 cm

domingo, 6 de maio de 2012

Labirinto



Uma ponta: Enquanto eu vejo uma criança brincar com lápis e papel, desmorona em cima de mim uma lembrança das primeiras vezes que tive a percepção de que um desenho no papel criava um mundo inteiro, do jeito que eu quisesse. Aquilo que eu concebesse nas linhas de grafite podia ter qualquer forma que eu conseguisse dar. Essa ideia foi o presente mais valioso, dentre tantos, que recebi de meu padrinho-tio-avô Armando Sgarbi. Criar era assim, escorrer um risco sobre um plano. Magica maravilhosamente simples e poderosa.

A outra: De todas as mitologias, a grega foi a que me acompanhou desde sempre. Tenho a impressão de que leram pra mim “Os Doze trabalhos de Hércules” de Monteiro Lobato antes de eu nascer. Nesse mar de historias, foi delicioso pensar que havíamos (os humanos) inventado um ciclo perfeito: Criamos um monte de seres míticos cuja principal função era criar-nos. Um conjunto fantástico de imagens e historias birutas que evitam a razão e o pensamento e falam diretamente com o sonho.

Juntando as duas: Toda vez que ouço a palavra Criação, emendo com traço e mito. Foi dessa união que surgiu o espécime que aparece logo abaixo. Tinha sido batizado Minotauro, mas mudei o nome em homenagem a Jorge Luis Borges que me mostrou que era possível misturar as cores da logica e do verbo com aquelas do inconsciente e da vida.



A Casa de Asterion
desenho digital feito com o mesmo software de sempre