domingo, 6 de abril de 2014

Entropia e saio...


Nem sei dizer quando foi que eu vi, mas sei que em algum movimento da minha infância percebi o incrível presente que eram as palavras: recipientes mágicos que nos permitiam, com a mesma eficácia, inventar a imaginação e depois guardá-la. Entendi com muuuuita precisão que cada texto (todos e de quem quer que fosse) que se produzia aumentava o mundo da mesma forma que uma casa, uma rua, uma estrada... mas com a diferença que aquele se multiplicava por tantos quantos fossem seus leitores e mais. A sensação de estar agora mesmo, neste instante, expandindo o que HÁ (ainda que sem a preocupação da medida ou da modéstia de cada toque no teclado) é sublime e maravilhosa. Nesse mesmo rol, transitam as ações de oferecer um livro ou contar uma história...

Acho que é isso: esse é um resumo mais ou menos organizado do que me passou pela cabeça quando encontrei um arquivo (no meu quase extinto notebook) com um poema(??) que escrevi para presentear minha irmã há já nem sei quantos anos. Além das ideias, veio também um vislumbre que acabou sendo o motivo dessa postagem.


O Vento passava por todos os caminhos do Mundo
Preenchendo o vazio com seu quase vazio.
Misturava gotas e grãos na alquimia do acaso.
Intrigava com o próprio assovio
Sem verbo e sem tempo...

Os olhos e bocas, que já habitavam a vida,
Viam e murmuravam no ritmo da mastigação.

Toda história, então, aconteceu em três dias:

No primeiro, um grão roçou os olhos
E apareceu a lágrima.

No segundo, as folhas acariciaram a face
E veio o riso.

No terceiro, a menina perguntou quase sussurrando
Ei, vocês estão ouvindo a música do vento?

Prece

sábado, 29 de março de 2014

"É fila? ou pega senha?"


A primeira vez foi assim:
Eu tenho quinze, dezesseis anos no máximo e me sinto fora do mundo (com essa idade, quem não?). Aprendi metade de tudo com os olhos, nas letras literárias dos livros, e a outra metade com a pulsação dos passos, no chão do meu bairro pequenino e distante como o diabo. Essas experiências, que são para mim como água e óleo, me deixam assim, exilado da sensação de estar no caminho. Sonho constantemente que a arte pode milagrosamente virar minha bússola e me mostrar um onde qualquer. Mas os dias passam e só o que trazem são outros dias, direção que ė bom, neca! Nesse tempo que se arrasta, chega uma ventania de sacudir a tranquilidade e as antenas não-parabólicas que comandam o que aparece nas telas da época. Na nossa casa, a antena fica no alto de um prédio de uns sete metros de altura, nos fundos (meu pai, mestre do exagero, fez um miniedifício pra sustentar uma super caixa d'água). E lá vou eu, subir no lugar mais alto do bairro, reapontar aquele treco pro lado certo e trazer as imagens de volta pra tv. Quando chego no topo da escada, já está chovendo à vera e começa a trovejar. O ar fica muito viscoso, e eu passo a me mover muuuito leeenntaaameenntteee. Os raios caindo cada vez mais próximos. Sinto minha saliva ganhar um sabor metålico, indicando que estou pronto... fico um bom tempo “olhando” pra cima, mas de olhos fechados, esperando sei lá o que. De repente, começo a descer a escada e não vejo o trajeto que me leva até o rosto preocupado da minha mãe perguntando "você tava lá em cima até agora?".

A segunda aconteceu há poucos dias:
Eu estou dirigindo, levando minha família pra casa, e um carro fecha meu caminho e para no meio da rua. Descem duas pistolas apontadas pra direção de algum ponto próximo da minha cabeça. Um dos assaltantes chuta a porta ao meu lado e eu sinto a saliva ganhar aquele mesmo gosto metálico, indicando, de novo, que estou pronto...

 Sonho de Sal

domingo, 9 de março de 2014

Caminhos e Migalhas de Pão


Estou juntando material para fazer um blog sobre dois irmãos que calharam de ser meus tios-avôs, Octávio e Armando Sgarbi. O primeiro, que teria completado cem anos há alguns dias, eu só pude conhecer pelos escritos, histórias, ilustrações e alguns quadros. O segundo foi o interlocutor de tantas infinitas prosas da minha infância nas aventuras do verbo, da rima das cores e do traço. E foi assim que, olhando as pastas com desenhos e contos do tio Armando, achei um texto de minha autoria que tinha sido posto lá, como homenagem - essa “Farpa” que deixo agora com vocês - realizado algumas horas depois de sua morte, para tentar driblar a dor pela perda de uma das pessoas mais brilhantes e queridas desse meu mundo. A figura que fecha a postagem foi concebida durante esse reencontro...



Farpa


         Mais uma batalha. No meio da confusão, destaca-se um cavaleiro de movimentos precisos, desferindo golpes que derrubam os inimigos um a um, após lhes revelar o sabor da espada.

Se o cavaleiro possuísse uma mente abstrata, ela estaria vazia agora, sem pensamentos, só ritmo e ação.

         De repente (de onde?), ele sente o toque de uma lança ou lâmina e percebe que está morto. Cai, cumprindo seu papel com o final dos músculos e do equilíbrio. O chão lhe parece absurdo assim tão próximo do rosto e a cabeça do cavaleiro, subitamente, está cheia de imagens, palavras, delírios...

Os sons e a dinâmica da luta se afastam e, numa farpa do tempo, ele imagina ou sonha ou vive uma outra vida:

         É então um homem calmo que convive intimamente com as idéias, usa os músculos e o equilíbrio de forma muito econômica. (Caso o antigo cavaleiro pudesse se ver assim, pensaria ver uma estátua)

Dessa vez a vida de aventuras e batalhas só existe nas histórias que ele lê e inventa. São tantas e tantas essas histórias... um sorriso muito peculiar revela o quanto de apreço ele tem por isso tudo.

         Mas, hei! é só uma farpa do tempo, lembra? E aquele homem sereno está morrendo agora. Está prestes a fechar os olhos definitivamente...Num fragmento de uma farpa do tempo (nesse instante, veja!) ele está escolhendo a vida que quer imaginar, sonhar ou viver dessa vez. E um último sorriso (aquele mesmo) revela o quanto ele gosta disso.

Aventura Particular

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Sociedade Secreta


Penso que a lista das coisas que acho belas é tão importante para me definir quanto a lista das coisas que me irritam, mas, certamente, a segunda vale muito mais na hora de decidir o que eu quero mudar em mim. Nessa linha da mudança, coloco uma terceira (e mais central): a lista das-coisas-que-me-envergonho-de-ter-feito. Pois então... recordo muito bem a primeira vez que vi um quadro do Jackson Pollock (o quadro do Pollock está na segunda lista). Olhei aquilo sem nenhuma cumplicidade e disparei: “qualquer um pode pintar isso!” (Sim, sim, essa frase está na terceira lista), mas o que falei logo depois foi ainda pior: “não entendo como é que essa turma quer pintar sem saber desenhar nem uma casinha!!” (também na terceira lista).
Mesmo lembrando que eu era muito jovem e estúpido, dá para perceber algo aí...
Parece que em arte, assim como em tantos e tantos ramos das criações humanas, ficamos o tempo todo construindo cerquinhas e murinhos pra regular a entrada seleta de quem vai fazer parte do clube.
“Não dá pra todo mundo ser artista!” (terceira lista.)
Foi então que há uns dias, nesses tempos intermináveis de sol, eu estava na piscina do condomínio onde moro, conversando com um vizinho sobre o meu trabalho como professor do CEFET. Falava da necessidade de oferecer a todos os jovens uma escola como a minha e blábláblá, blábláblá...
Meu vizinho, de repente, me interrompe e fala: “mas cuidado aí! Também, se todo mundo quiser ser bacharel, quem é que vai limpar o chão?” Na mesma hora me virei para pegar uma vassoura e começar a varrer, numa atitude exemplar, quando soou uma sirene interna acionada por um ou dois itens das listas. Respondi só um “sei não...”, botei a viola no saco e fui pra casa, antes de mais nada, desencravar carunchos que insistem em fincar o pé nas minhas ideias. 

 #bravuraindomita
ou
Manual de barbearia do século XX

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Colombo

Se posso escolher, gosto de lembrar do ocorrido acontecido desse jeito:

Segunda metade do século XX, início dos anos oitenta na Ilha do Fundão, campus da UFRJ. Duas pontes conectam a ilha ao continente e uma delas, que é bem curtinha, serve para muita gente atravessar a pé de lá pra cá e de cá pra lá. Mas nesse dia, à uma da tarde e com o Sol a pino, só um estudante alto e magricelo parece querer se aventurar pelo caminho. Tanta coisa na cabeça...dentre elas, salta aos olhos (da mente) a arrogância de quem se acha um gênio capaz de redefinir os caminhos da Física com o trabalho mais fundamental e importante de seu tempo. Além disso, ele se vê com um futuro promissor no mundo das artes e, se houver espaço, quer dar sua contribuição indelével à literatura...um novo Borges, talvez. Os pensamentos desse pretenso Napoleão do intelecto são interrompidos quando um fusca, que estava prestes a iniciar a travessia da ponte, sobe a calçada e, abandonando qualquer direção lógica, começa a se dirigir para um ponto da “praia” que limita aquela parte da Baía da Guanabara. O carro estaciona e salta um sujeito já vestido com uma roupa de mergulho. O nosso “futuro Einstein”, que tinha parado de andar e acompanhou toda a ação, não consegue acreditar no que está prestes a acontecer. Aquela água deve conter muito mais matéria orgânica em decomposição e óleo queimado do que H2O propriamente dito. Se fosse para...
Mas o fato se adianta, desmancha as ideias e com um único mergulho o incauto explorador do lixo líquido cria uma singularidade quase milagrosa, de tão absurda.

Pois é, presenciar aquele ato do mergulhador biruta foi certamente uma das experiências mais significativas na lenta cadeia de eventos que transformaram aquele jovem observador, cheio de soberba, no que sou agora, neste momento, aqui, envolvido com estas teclas e com este texto. Foi a chance de ver um movimento capaz de quebrar paradigmas com tanta coragem e vigor quanto eu nem sequer imaginava existir. E tudo isso numa atitude anônima, sem a glória do reconhecimento. Uma prova, pra deixar todos os mestres de queixo caído, mostrando com clareza que os caminhos possíveis são infinitos. A cada passo, tantas opções quanto se queira.
Lembro que tive um ímpeto virtual de chegar ao meio da ponte e lá do alto mergulhar na podridão. Se perdia em originalidade, ao menos vencia em impacto. Mas a droga da sensatez me convenceu a guardar essa insanidade em um recipiente adiabático, pra ser usado no futuro.

Mas não hoje...

Leucócito 
desenho digital

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

BigBang


Paulo Freire me disse uma vez (através de um dos seus livros cujo título não consigo lembrar) que nós, pessoas humanas, só estamos ou somos felizes quando cuidamos uns dos outros. Assim que li, concordei em gênero, número e grau. E fiquei orgulhoso por concordar tanto com um cara feito ele, de importâncias e realizações realmente realizadoras (como poucos há). Mas aí... Aí vem o raio da multiplicidade e grita no meu ouvido com todas as vozes, enumerando com um rigor irritante cada uma das infinitas ocasiões em que eu fui absurdamente feliz com coisas minhas (tão somente minhas...) ou partilhando com alguém-próximo-por-demais (e aí, não conta). Pois então...ficou na minha cabeça, nem sei desde quando, que praticar o bem era aquela coisa meio nebulosa que tinha a ver com tomar conta dos  outros, já o mal era tratar com desprezo tudo que está fora de nossa-pele. Usando uma linguagem matemática:
O Mal = Não_estar_nem_aí para X, se X não pertence a {EU MESMO};
Tá bom, mas se existe uma coisa que sei é que eu não inventei este retalho de mundo virtual para explicar coisa nenhuma, e sim pra repartir meus trabalhos. Então, essa introdução queria simplesmente preparar espaço para duas imagens que , nos meus olhos, estão muito ligadas a antagonismos como Eu X Nós, ou Solidão X Yellow Submarine, ou ainda Mal X Bem (que para mim, é quase igual a Doente X São ), ou Liquidariedade X Solidariedade, ou algo do gênero...
Tem mais um negócio, quase tudo que faço em arte começa com alguma (ou algumas) pergunta(s) que eu escrevo pra mim mesmo e da mistura (eu) + (?) surge um... (repare que isso não é também uma explicação, é mais algo como contar um segredo), enfim, surge. Mas esses dois aí embaixo não passaram por esse processo. Ambos apareceram envolvidos em contextos específicos e, de repente, estavam lá... Duas historinhas bem rapidinhas: Um deles era pra ser a ilustração de um conto, escrito por um amigo, que tinha um personagem que só conseguia se relacionar com os outros pela dor. E se alimentava disso.
O outro estava pronto quando vi, há quase trinta anos: um mendigo sentado na calçada, em Copacabana, fabricando uma bola meticulosamente com trapos e sacos de lixo. Um homem sozinho fazendo seu brinquedo. Na mesma hora, eu percebi que tinha sido presenteado com um possível vislumbre do Mito da Criação.

Aquele
desenho digital feito no MyPaint

Genesis
Oleo sobre tela - 70 x 50 cm

terça-feira, 23 de julho de 2013

A Razão de Tudo: Um Sentimentozinho de Nada

Explicar é urgente, imperioso...parece que é sempre assim. Quantas vezes vemos arroubos de paixão ou explosões de fúria serem transformados em discurso coerente por explicações tão lógicas que quase chegam a fazer sentido. Amores ou rancores virando bláblábá. Mergulhar nu, sem proteção, no caos emocional? Dá um medo danado. Queremos a superfície plana do pensamento concatenado, das causas e consequências bem estabelecidas. Queremos poder gritar fiz tudo de cabeça pensada, e quem não vê isso é idiota! 
Queremos...?...
Sei lá, porque gosto também bastante da ideia de que tudo é instável, nebuloso e está o tempo todo se desmanchando. E de imaginar todos nós fraquinhos, quase cegos, teimando de forma inusitada (corajosa?) em continuar indo em frente(?) tropeçando-e-se-estabacando. Essa teimosia é tão... e tanto... Assim é reunir um milhão de pessoas na rua e na praça, algo que surge pra mim na esfera da desciência, como um superlativo de correr como louco, ou flutuar no sal do mar, ou olhar pro Sol. 
Coisas que não cabem na palavra

Feito um grito

Feito um riso



#pecadoriginal
desenho digital feito com o MyPaint