Passeando pela web, vi
uma fotografia do mar que envolve a costa do Rio de Janeiro. Nada
mais comum, se não fosse pela hora e meteorologia do momento do
click, final da tarde de um dia de chuva numa praia praticamente
deserta. Olhei aquilo e percebi que estava prestes a recuperar algo
que já tinha possuído. Esperei muito pouquinho até a lembrança
chegar: lá estou eu, com menos de vinte anos, hospedado com mais um
batalhão de amigos, numa casa de veraneio na praia do Peró. Assim
como na imagem da tela do computador, a luz do dia já se vai e
começa a cair uma chuva bem fininha, poeira de água. Todos voltaram
para casa, menos eu. Resolvi dar mais um mergulho na água que parece
agora feita de outra substância mais grave, como se ensaiasse uma
tentativa de virar mercurio. Afundo completamente, saindo do alcance
do som e da luz e no momento meu cérebro tem apenas o tato para
receber qualquer mensagem do mundo. Desse modo, fico com a impressão
de que tudo que sobrou da existência inteira se resume àquilo que
se passa na minha cabeça, e que se me esforçar um pouco, posso
realizar qualquer milagre e inventar todos os universos. Mesmo sem a
memória de tudo que pensei, sei que não foi o suficiente. O oxigênio
terminou antes da CRIAÇÃO. Passo a boiar de costas e recuperei a
visão. Habito um mundo em que o chão e o ar são feitos de água.
Os barulhos quase todos ainda ausentes dos ouvidos submersos. Nesse
momento é que eu noto o que está esquisito: houve uma inversão e
aquilo que os meus sentidos me dizem parece mais abstrato que as
ideias nascidas nas dimensões interiores. Começo a nadar
recuperando o desejo de apoiar os pés na areia e vou mirando as
luzes das casas na praia que ficou distante por culpa de alguma
corrente me levando mar adentro. Alcanço afinal um elemento sólido
e ando percebendo pela primeira vez (ao que recordo) que tenho ossos
e que eles me constroem. Caminho pra casa com uma expectativa muito
forte de que a qualquer momento posso flutuar.
domingo, 1 de junho de 2014
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Como se fosse na Copa
Ouvi outro dia: “Se
você quer ser aluno do CEFET, tem que ralar e correr atrás de
verdade. Não gostou, então vai lá pra FAETEC!” Era um professor
(colega meu na Celso Suckow) falando com alguns de seus alunos. A
verdade verdadeira mesmo é que (e confesso coberto de vergonha) se
nunca falei essa frase, já disse coisa muito semelhante, carregando
a mesmíssima mensagem. E isso tudo me deixou encasquetado por um
tempão: por que diabos eu falei barbaridades desse tipo, se não
acredito nelas nem um pouquinho? Pôxa vida! Será que não é obvio
e ululante que estão aí, pelo menos, duas ideias absurdamente
tortas?
A mais gritante pra mim
(por ser mais simplória mesmo) é essa doideira, que nos persegue a
todos, de ficar criando espaços VIP onde só os escolhidos ou muito
merecedores podem estar (e devem se orgulhar muito disso!). Caramba!
Como querer lutar contra a desigualdade no mundo sem atacar a loucura
na nossa própria visão elitista, presente até a raiz dos cabelos
em cada palavra do discurso do professor lá do início? Queremos
diminuir as diferenças e aumentar as oportunidades atiçando o
orgulho divino de quem conseguiu chegar no Olimpo? É isso mesmo??
“Ah, até agora vocês se mostraram bons o suficiente pra se
destacar daquela corja, mas se saírem da linha, voltam pra lá e vão
ter que chafurdar na lama novamente!” Cruz credo!
A outra é uma fonte
inesgotável de dor: a crença de que pra sermos felizes temos
primeiro que sofrer um bocado. Que droga! O Mundo já tem
complicações e problemas de sobra! Pra que ficar inventando mais
ainda? E o que é mais imperdoável, pra jogar tudo no colo de nossos
alunos à guisa de “treinamento”?
Pro Inferno!!! Repito:
Pro Inferno com esse raio desse treinamento!!! Não foi pra isso que
eu me fiz professor! Vi sempre tanta coisa maravilhosa que foi
pensada, imaginada, criada e construída por nossa espécie, que um dia
resolvi ajudar a mostrar um pouco dessa beleza pros outros e, quem
sabe, inventar com eles umas cores novas. E onde eu podia fazer essa
festa toda? Na escola, é claro!!
Acredito até o fundo
da minha alma que qualquer aluno, que a gente consiga levar em um
mergulho ao encontro dessas maravilhas, vai ser capaz de trilhar seu
caminho com competência, sendo feliz e pródigo no trabalho.
Nenhuma das pessoas
brilhantes que conheci ficaram assim pela ação do castigo e da
ordem disciplinadora, ou pelo sofrimento. Acho, isso sim, que
conseguiram ser o que são apesar dessas coisas todas.
Depois de dar muita
cabeçada e de visitar por tantas vezes esses caminhos
pré-programados da burrice, espero ficar atento pra evitar novos
escorregões, que se for pra colaborar com a estupidez, prefiro pedir
meu boné e ir ganhar o pão de cada dia em outras bandas.
Sparta
domingo, 18 de maio de 2014
O Sombra sabe ou A sombra sobe?
O sonho é assim: eu estou indo com uma
certa urgência e angústia para a frente do espelho. Quando me vejo,
percebo que minha pele toda está coberta de espinhos, milhares
deles. Acordo imediatamente, e o vislumbre foi muito muito rápido,
mas fico impregnado por uma sensação de que estou fora da ordem ou
que fui excluído da parte relevante do mundo, talvez, por ter
frustrado espectativas de quem se aproximou e foi espetado. Tenho
certeza de que esqueceram de me dar um aviso muito importante e que
fatalmente vou perder alguma coisa.
É isso, ser
inadequado é um dos meus pesadelos. Se não são espinhos,
tenho plena consciência de que possuo cotovelos, joelhos e quinas
contundentes em demasia. Por mais que eu busque a delicadeza, sei
como é fácil ferir alguém no meu caminho por aí. Pior, a
probabilidade maior é de acertar alguém que eu amo, e que, por isso
mesmo, está por perto. Só pra citar um exemplo, fui surpreendido
outro dia com o nível de preocupação que me assaltou ao ver minha
filha de dezoito anos pondo água no fogo pra fazer miojo. É duro
ver que o amor, sim, mesmo ele, pode se traduzir em ações nocivas,
e conduzir a coisas como superproteção (ou sentimento de posse ou
ciumes) que emperram o percurso mais pleno da vida de quem (logo
daqueles) queremos cuidar com tanto carinho. Parece brincadeira
(sim, é estúpido e me envergonho muito disso), mas nem sempre é
claro pra mim o absurdo da loucura que se mostrou presente no
episódio do medo-do-macarrão-fervente.
Nessa hora,
preciso usar toda minha energia e mais um pouco para não ir para o
extremo oposto, paralisar completamente as ações e movimentos, por
constatar a capacidade de atingir olhos e lábios ao meu redor. Minha
cabeça fica preenchida com a ideia de que podemos ser pesados de
verdade, e não há maneira de um hipopótamo pular gentilmente no
colo de quem quer que seja. Ficam sequelas e esmagamentos.
Respiro fundo e
tento me encher de coragem para voltar a navegar, com atenção
redobrada em manter o rumo e o prumo do barco. E sigo sussurrando
minha prece: vamos, vamos... “depressa e devagar”...
domingo, 27 de abril de 2014
Aperte a tecla verde CONFIRMA
Desde que ouvi a frase
“Não me venham com a problemática que eu tenho a solucionática!”,
pareceu que ela servia exatinha pra descrever minha postura diante
das complicações e dos nós que, vira e mexe, acabam se metendo no
caminho. Mas as contradições moram em todo canto, e em outros
cômodos da minha vida as coisas não são bem assim. Por exemplo,
quando sou pintor ou leitor ou estudante de ciência ou de filosofia
ou estou passando por qualquer lugar ermo do pensamento abstrato, me
sinto infinitamente mais feliz visitando as regiões nebulosas do que
as ideias limpas e claras. É naquelas que eu quero mergulhar e me
sentir perdido, sabendo quase secretamente que dali a pouco pego uma
trilha e retorno à superficie.
E achei que ia ser
sempre assim, no mundo áspero do chão e do Sol eu escolhia a
RESPOSTA; já na esfera etérea das ideias e dos sonhos eu me
deleitava com as PERGUNTAS. Acontece que, se por acaso, vai que o
chão e o sonho se misturam? E aí? Como é que fica?
pergunta-ou-resposta?chão-ou-ideia?Sol-ou-sonho?
E de repente POW! A gente dá de cara na parede!
E aí cai, levanta sem
pelo menos dois dentes da frente e fica meio atordoado pra escolher
um rumo. Acho que nessa hora é que as pessoas viram gente grande e
“fazem o que têm que fazer”, seja lá o que for isso. Não tenho
certeza, mas desconfio que eu, em pé diante da encruzilhada, vou
sentir uma enorme vontade de ficar embalando as duas (ou tantas
quantas forem) desescolhas nos meus braços até o fim dos tempos e
do tempo...
estado fundamental
domingo, 6 de abril de 2014
Entropia e saio...
Nem sei dizer quando
foi que eu vi, mas sei que em algum movimento da minha infância
percebi o incrível presente que eram as palavras: recipientes
mágicos que nos permitiam, com a mesma eficácia, inventar a imaginação e
depois guardá-la. Entendi com muuuuita precisão que cada texto
(todos e de quem quer que fosse) que se produzia aumentava o mundo da
mesma forma que uma casa, uma rua, uma estrada... mas com a diferença
que aquele se multiplicava por tantos quantos fossem seus leitores e
mais. A sensação de estar agora mesmo, neste instante, expandindo o
que HÁ (ainda que sem a preocupação da medida ou da modéstia de
cada toque no teclado) é sublime e maravilhosa. Nesse mesmo rol,
transitam as ações de oferecer um livro ou contar uma história...
Acho que é isso: esse
é um resumo mais ou menos organizado do que me passou pela cabeça
quando encontrei um arquivo (no meu quase extinto notebook) com um
poema(??) que escrevi para presentear minha irmã há já nem sei
quantos anos. Além das ideias, veio também um vislumbre que acabou
sendo o motivo dessa postagem.
O Vento passava por
todos os caminhos do Mundo
Preenchendo o vazio com
seu quase vazio.
Misturava gotas e grãos
na alquimia do acaso.
Intrigava com o próprio
assovio
Sem verbo e sem
tempo...
Os olhos e bocas, que
já habitavam a vida,
Viam e murmuravam no
ritmo da mastigação.
Toda história, então,
aconteceu em três dias:
No primeiro, um grão
roçou os olhos
E apareceu a lágrima.
No segundo, as folhas
acariciaram a face
E veio o riso.
No terceiro, a menina
perguntou quase sussurrando
sábado, 29 de março de 2014
"É fila? ou pega senha?"
A primeira vez foi
assim:
Eu tenho quinze,
dezesseis anos no máximo e me sinto fora do mundo (com essa idade,
quem não?). Aprendi metade de tudo com os olhos, nas letras
literárias dos livros, e a outra metade com a pulsação dos passos,
no chão do meu bairro pequenino e distante como o diabo. Essas
experiências, que são para mim como água e óleo, me deixam assim,
exilado da sensação de estar no caminho. Sonho constantemente que a
arte pode milagrosamente virar minha bússola e me mostrar um onde
qualquer. Mas os dias passam e só o que trazem são outros dias,
direção que ė bom, neca! Nesse tempo que se arrasta, chega uma
ventania de sacudir a tranquilidade e as antenas não-parabólicas
que comandam o que aparece nas telas da época. Na nossa casa, a
antena fica no alto de um prédio de uns sete metros de altura, nos
fundos (meu pai, mestre do exagero, fez um miniedifício pra
sustentar uma super caixa d'água). E lá vou eu, subir no lugar mais
alto do bairro, reapontar aquele treco pro lado certo e trazer as
imagens de volta pra tv. Quando chego no topo da escada, já está
chovendo à vera e começa a trovejar. O ar fica muito viscoso, e eu
passo a me mover muuuito leeenntaaameenntteee. Os raios caindo cada
vez mais próximos. Sinto minha saliva ganhar um sabor metålico,
indicando que estou pronto... fico um bom tempo “olhando” pra
cima, mas de olhos fechados, esperando sei lá o que. De repente,
começo a descer a escada e não vejo o trajeto que me leva até o
rosto preocupado da minha mãe perguntando "você tava lá em
cima até agora?".
A segunda aconteceu há
poucos dias:
Eu estou dirigindo,
levando minha família pra casa, e um carro fecha meu caminho e para
no meio da rua. Descem duas pistolas apontadas pra direção de algum
ponto próximo da minha cabeça. Um dos assaltantes chuta a porta ao
meu lado e eu sinto a saliva ganhar aquele mesmo gosto metálico,
indicando, de novo, que estou pronto...
Sonho de Sal
domingo, 9 de março de 2014
Caminhos e Migalhas de Pão
Estou
juntando material para fazer um blog sobre dois irmãos que calharam
de ser meus tios-avôs, Octávio e Armando Sgarbi. O primeiro, que
teria completado cem anos há alguns dias, eu só pude conhecer pelos
escritos, histórias, ilustrações e alguns quadros. O segundo foi o
interlocutor de tantas infinitas prosas da minha infância nas
aventuras do verbo, da rima das cores e do traço. E foi assim que,
olhando as pastas com desenhos e contos do tio Armando, achei
um texto de minha autoria que tinha sido posto lá, como homenagem -
essa “Farpa” que deixo agora com vocês - realizado algumas horas
depois de sua morte, para tentar driblar a dor pela perda de uma das pessoas
mais brilhantes e queridas desse meu mundo. A figura que fecha a
postagem foi concebida durante esse reencontro...
Farpa
Mais uma batalha. No
meio da confusão, destaca-se um cavaleiro de movimentos precisos,
desferindo golpes que derrubam os inimigos um a um, após lhes
revelar o sabor da espada.
Se
o cavaleiro possuísse uma mente abstrata, ela estaria vazia agora,
sem pensamentos, só ritmo e ação.
De repente (de
onde?), ele sente o toque de uma lança ou lâmina e percebe que está
morto. Cai, cumprindo seu papel com o final dos músculos e do
equilíbrio. O chão lhe parece absurdo assim tão próximo do rosto
e a cabeça do cavaleiro, subitamente, está cheia de imagens,
palavras, delírios...
Os
sons e a dinâmica da luta se afastam e, numa farpa do tempo, ele
imagina ou sonha ou vive uma outra vida:
É então um homem
calmo que convive intimamente com as idéias, usa os músculos e o
equilíbrio de forma muito econômica. (Caso o antigo cavaleiro
pudesse se ver assim, pensaria ver uma estátua)
Dessa
vez a vida de aventuras e batalhas só existe nas histórias que ele
lê e inventa. São tantas e tantas essas histórias... um sorriso
muito peculiar revela o quanto de apreço ele tem por isso tudo.
Mas, hei! é só uma
farpa do tempo, lembra? E aquele homem sereno está morrendo agora.
Está prestes a fechar os olhos definitivamente...Num fragmento de
uma farpa do tempo (nesse instante, veja!) ele está escolhendo a
vida que quer imaginar, sonhar ou viver dessa vez. E um último
sorriso (aquele mesmo) revela o quanto ele gosta disso.
Aventura Particular
Assinar:
Postagens (Atom)




