terça-feira, 30 de agosto de 2016

Coletivo de Espectador

O espetáculo deve começar a qualquer momento.

Pelo menos, essa é a expectativa da plateia, eu entre eles.
As luzes já se apagaram há um bom tempo (o terceiro sinal soou?) e em vários instantes pensei ver a cortina ameaçar o movimento de abertura. Mas não, continuamos aqui, submersos na semi escuridão da espera, num estado que se situa entre ter-algo-pra-falar-e-falar e ter-algo-pra-ouvir-e-ouvir. Qualquer tentativa de engatar uma conversa de verdade, interessante, que preencha o tempo, parece ser minada por uma espécie de pressa ou ansiedade por aguardar. Então, ficamos todos aqui, parados e de prontidão.
Pela ausência de luz, não posso ver, mas adivinho o mesmo incômodo nos rostos ao meu redor, paralisados na sequência de um ritual que parece ter falhado ou se quebrado e, no entanto não se pode questionar.
Na minha imaginação, sonho com um foco de luz que proclama minha coragem e me vejo levantando e bradando “pra mim, chega!”, abrindo caminho para a saída com uma multidão de indignados a me seguir. Desperto do desvario ainda no silêncio oco da minha imobilidade vegetal. Um fiapo de pensamento me dá esperança: “ainda que não seja eu, alguém vai derrubar a ordem e acabar com isso”.
Por vezes, descubro que nem lembro bem o que se passava na minha cabeça antes de chegar a esse ponto inerte, aqui e agora.
Só sei que a vontade é de expandir, sair e viver.
Mas ...“calma, sossega...”

Enfim, o espetáculo deve começar a qualquer momento.


da Sala de Jantar

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O Quatrojan


Logo depois da virada do ano, no primeiro domingo, a praia nos recebeu indisposta, de cara feia. Lixo pra todo lado. A impressão era que a areia nunca mais ia conseguir se livrar daquela sujeirada. Um pensamento ranzinza e reclamão (que me fez lembrar que estou ficando velho) apareceu na mesma hora: “o pessoal já começou mal odoismilequinze! vêm comemorar e largam o lugar imundo desse jeito!”.
Por pura sorte, desviei o olhar num microinstante e vi o trabalho consistente e confiante de um gari na luta contra os detritos. Com aquela imagem já devidamente armazenada, mudamos o sentido da caminhada e fomos para o posto-nove-que-não-há. Conforme andávamos, a areia ia ficando mais limpa e as pessoas menos numerosas. A respiração e a conversa quase podiam voltar ao como-devem-ser-sempre. Uma onda quebrou forte e barulhenta na areia para lembrar que, pela zilionésima vez, naquela manhã, o mundo reinaugurava esse negócio de existir.
Quando as pernas e o cansaço avisaram que era hora de parar, o relógio da calçada acendia um 8:55 e logo trocava pra 4 jan. Fiquei um tempinho meio abobalhado, recebendo ciclicamente aquelas duas informações que se alternavam...aí, restartei o cérebro e corri pra minha água de coco.
Enquanto saboreava aquela delícia de estalar a língua, pude ouvir, acima de todo burburinho matinal, o Tempo gritando pra mim e pra quem mais quisesse prestar atenção: Olha, Abri tudo quanto foi porta! Os caminhos estão aí! Agora é com você!


Quebracabeça

domingo, 28 de dezembro de 2014

Só a resposta a caneta

Seis da matina quando chegamos à rodoviária de São Sebastião, depois de sete horas de viagem. Tempo feio e eu com uma gripe miserável. Faltava pegar um táxi pra Maresias, que era lá que ia acontecer o XV EPEF, Encontro de Pesquisa em Ensino de Física.
Bom dia! Leva a gente pra Maresias? O taxista, um senhor que parecia ser feito de um material um pouco mais denso do que o indicado para seres humanos, respondeu com sotaque nordestino “à vontade, pode entrar...a corrida sai por oitenta reais”.
Droga! Tinham me falado que daria cinquenta no máximo. Senti um desconforto com a possibilidade de alguma pilantragem. Ter que ficar atento a essas pequenas disputas era a última coisa que queria naquele momento. Preferi então acreditar em uma explicação inflacionária, para poder voltar ao meu estado habitual e tratar o motorista como um bom e honesto camarada. Relaxei e comecei a aproveitar a paisagem, esquecer a febre e o mal estar. Larguei os pensamentos. O ano, o mais complicado da minha vida, estava chegando ao fim e marcava duas ideias bem claras e distintas na minha cabeça. A primeira, exagerada pela virose, uma vontade desmedida de voltar a ter um lugar confortável pra ser e estar. A segunda, mantida sempre acesa ao custo da dedicação do conhecimento, a atenção cuidadosa com tudo que possa esbarrar em meus sentidos (viver e sentir de olhos abertos...olhos abertos).

“...era um avião particular, tinha caído há anos. Só acharam os pedaços agora, outro dia...” A voz ao meu lado me trouxe de volta à estrada (ouvidos abertos também!). Falava de um monomotor (?) que batera na escosta do morro que passava por nós...pausa e ...Fim. Voltei pro lado de dentro, não deixando de mirar o céu de nuvens pesadas. Tentava, sem sucesso, recuperar, nem que fosse só de lembrança, a alegria imensa que sentira em outras chegadas, a outros destinos, em outros tempos.
A entonação alagoana (essa origem geográfica tinha sido revelada algumas curvas atrás) voltou a reverberar “...sim senhor, tenho trinta e seis filhos!”
Sério mesmo? Trinta e seis?!
“Por certo!”
Vixe!!! Eu, com uma só, não dou conta!
“...com seis mulheres!”
Caramba!
“Com duas eu casei, com outras quatro só fui amasiado...”
Nossamãe!
“...pois tenho setenta e quatro anos e muita disposição!”
Puxa!
“e trabalho no táxi doze horas por dia, pelo menos!”
Parecia que ia desafiar todos os recordes, mas falava sem exagerar orgulhos e arrogâncias. E não tinha nada de confessional, era como um relatório de atividades e resultados para algum CNPq da vida.
Seguimos com aquela prosa contábil cheia de temperos que, mesmo agora, não sei identificar. Quando estacionou na porta do hotel, recebeu os oitenta reais com uma postura que deve ser comum em um mundo sem espaço para dúvidas e incertezas. 

Apertou nossas mãos vigorosamente como quem diz “Coragem! Já vivi as histórias todas, muitas vezes! É assim mesmo! É só seguir em frente...”

Reflexões II
ou
Por um painosso e dez avemarias

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Para Marise, com amor e sordidez

O que eu aprendi foi mais ou menos assim, você cresce, encontra uma pessoa especial que gosta de você e vice versa. Aí, juntos, constroem uma casa, uma família, uma vida, enfim.
Que droga! Não quero ficar aqui fazendo papel de idiota romântico, mas, caramba!, passei quarenta e poucos anos da minha existência convivendo quase que diariamente com um casal irremediavelmente apaixonado, até o último suspiro consciente do meu pai: quando entrou na UTI (da qual não sairia mais com vida) pediu para o maqueiro retornar um pouquinho até a porta, olhou pra minha mãe e disse com o que lhe restava de voz “eu te amo”. Depois de aprender que sempre veria os dois de mãos dadas, andando, vendo televisão ou sentados à mesa, ainda presenciei essa cena que, eu acho, vai ser eternamente a minha definição de amor. Tendo testemunhado essas e outras milhares de preciosidades, não havia muita chance mesmo de ser uma pessoa normal.
Vi e convivi com muitas e muitas outras duplas e parcerias que não carregavam esse exagero quase fantasioso, mas não o suficiente pra consertar minha visão de relacionamentos.

A imagem que lhes entrego agora foi a pintura que mais me deu trabalho nessa vida. Nela eu fiz um enorme esforço pra enxergar além do universo de carinho infinito que me construiu na infância, adolescência e boa parte da idade adulta. Tentei misturar um pouco mais de ego e sordidez ao amálgama que eu vi insistentemente se desenhando perto da perfeição. Coloquei um pouco de mim, dos espinhos que já vieram comigo, mas mantive a esperança de preservar a beleza das cores que me aquecem em qualquer noite de inverno.

Projetista
Óleo sobre Tela
90 x 110 cm

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

"After many a summer"

Nunca, nesses anos todos que já somam quase cinquenta, experimentei qualquer estado de espírito que me fizesse sentir longe da minha juventude (às vezes, tenho dificuldade em acreditar que não estou ainda no final da adolescência). Mas, outro dia, com minha imagem no espelho, vieram as palavras “Esses óculos e esse cabelo me mostram mais gasto e fora do tempo”. Assim que o pensamento se espalhou pelos meus olhos, entendi que se tratava de um sentimento inédito, uma novidade. Não que eu nunca tivesse percebido o relógio andando, claro que eu percebi. Não sou tão doido. Mas a noção plena e profunda de que a entropia vai me embalando por caminhos que parecem inevitáveis não tinha sorrido com tal clareza, a ponto de fazer a saliva mudar de gosto.
Na mesma hora subiu uma palpitação-fibrilativa-taquicárdica num sobressalto de urgência: “Cara! Levanta, carrega a vida e vai! Corre!”.
Tudo bem que prática de ficar impassível diante do meu reflexo me impediu de surtar. Só que dessa vez não dava pra guardar o pulso em nenhum esconderijo, tive que começar um movimento. De verdade!
Sim, eu passei um bocado de tempo alimentando minhas paixões com Lexotan. ®. Tanto é, que não tenho ainda o timing pra mergulhar de cabeça, do jeito que o desejo exige. E, sim, foi preciso levar um tombo feio pra caramba para a letargia, sempre tão presente, ir escorrendo por aí, a ponto de agora só conseguir perceber dela alguns vestígios. Mas o fato é que saltei para um plano vital que tinha ficado fora da mira por uma eternidade. Que legal!
Pois então, é assim: pintar, voar, estudar física e filosofia e arte para entender o mundo, ensinar, desenhar e fazer poesia com isso tudo! Está quase difícil não sair atropelando os passos feito louco...
É bom à beça ver que estou próximo de ter que pedir “paciência!” (alguma, pelo menos) pra não derrapar em demasia
e vâmo que vâmo!!


Autoavaliação

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Transformações de Galileu


Andar é muito simples: um pé sai do chão, avança um pouco até encontrar apoio, o corpo vem pra frente e daí é a vez do outro pé entrar na jogada e assim por diante. Ninguém precisa de tutorial pra isso e qualquer criancinha com um ano, ou um pouco mais, tira de letra. O problema, problemão mesmo, aparece quando o cabra começa a perguntar, assim de repente, pra onde vai apontar os passos. Ou pior ainda, acha de inquirir “pra que partir?”.
Sei, sei, sei...todo dia fazemos essas perguntas e não tem nenhum drama nisso, mas é porque nesse caso, que fica na normalidade, a gente faz a pergunta já sabendo um tantão da resposta. Perguntamos mais por perguntar, pra encher o tempo com assunto, mas, lá dentro, o coração (ou o estômago, ou algum desses órgãos dos quereres) já está impaciente apontando prum lado há séculos.
Então, essa inércia extrema e desnorteada (a que não enche o tempo com nada, só esvazia), ocupada em soterrar desejos e cimentar pensamentos, me levou o foco e a alegria por um curto (mas pesadíssimo) período de um raio de uma crise depressiva.
Uma das medicinas-terapêuticas que tentei consistia em buscar histórias, narrativas e cenários em que o movimento fosse um personagem central. Queria ensaiar uma inspiração pro meu ímpeto descongelar e se anunciar de uma vez.
Nessa pesquisa, dois achados:

i) A “Viagem Filosófica” e o reencontro com os belíssimos desenhos que formam o registro iconográfico da aventura fantástica patrocinada pelo governo português com a intenção de desvendar um pouco do mundo de mistérios ocultos nas matas brasileiras. A expedição teve início em 1783 e durou nove anos colhendo informações sobre a fauna, a flora e os habitantes da região amazônica, percorrendo e inventando quarenta mil quilômetros de caminhos.

ii) A praia usada como pista de corrida. Não só pela maravilha que é ver a água imensa e inquieta enquanto vão ficando as pegadas que provam e atestam a decisão e o rumo, mas também pelo poder purgante-de-toda-desgraça que as ondas têm. O chão, menos que sólido, exige esforço e transforma o trajeto em tarefa, mas oferece presentes que servem para registrar (a exemplo dos desenhos da Expedição Filosófica aí de cima) a cisma de ir e ir mais. Foi assim com um caco de vidro que recolhi outro dia, privado das arestas e do brilho, tornado arredondado pelos grãos e pela água de sal. Continuava belo, verde e translúcido, mas inofensivo.

Antes de terminar a conversa, quero confessar que me incomodou essa palavra “inofensivo”, pois gosto de pensar que meu lugar é mesmo o fio da navalha, é lá que me sinto vivo.
Mas tudo bem, cautela agora: fortalecer a musculatura e correr e correr, até poder voar sem tanto risco de morrer na próxima queda...

Stopmotion


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Ultrasonografia - parte II

Daqui a pouco, vai ficar tudo na terceira pessoa porque tive que sair, me ver de fora, para traçar (ia escrever “entender”, mas seria exagero) pelo menos uma parte do que estava acontecendo. Achei justo, portanto, narrar a história desse jeito, estrangeiro de mim mesmo.

O sujeito, o personagem, o ser vivente em torno do qual se aglomeram as palavras desse texto está andando numa estrada reta. Não pergunta se gosta do caminho nem duvida dele. Segue em frente. A crise, que vai dar algum sabor ao percurso, está prestes a saltar nas suas costas, mas ele não sabe ou, se sabe, guardou o conhecimento em algum canto escuro sem revelar nada aos olhos ou aos pés.
Assim, quando o turbilhão o alcança, faz uma festa com o pobre. Nem sinal da estrada reta, pior, pés e chão viram conceitos vazios de sentido. Flutuar, quando possível, e engolir a água de todos os afogados são as ações do momento. O controle dos nervos e tendões fica esquecido e o homem só se dá conta de que estava se debatendo como louco quando nota um cansaço insuportável em cada um de seus músculos.
Desespero pra subir, emergir, voar e poder pousar de novo no velho e conhecido trajeto.
Concentrando todos os esforços, ele consegue eventualmente alguns breves instantes de contato com o ar. Nessas horas respira com o desejo dos sobreviventes. No entanto, fica claro que as últimas doses de energia estão no fim. E a existência de terra firme surge como uma memória do passado distante que pertencia a outra pessoa.
Não é a inteligência e nem a sabedoria quem traz um rumo, uma solução. Por total falta de opções, ele escolhe o único destino que sobrou: o fundo. Vai até onde não pode mais, fecha os olhos e pensa “agora ou vai ou...” e abre as narinas e a boca inspirando tudo que é possível. E, milagrosamente, apaga.
Uma eternidade depois, abre os olhos e vê diversos rostos familiares, amigos. Todos aflitos com uma espera, que parecia não ter fim, pelo retorno dele. Sorriem aliviados e juntos.
Levanta (só então percebe que estivera deitado) encarando os rostos com ternura. Olha o céu e os horizontes com a exata noção de que não tem a menor ideia de onde está e nem para onde vai.

Leve e surpreso, descobre que o sorriso continua na face e principalmente na alma, lugar de que nunca devia ter mesmo saído.

Segunda Lição de Anatomia